
É um acto comum folhear e ler um jornal, ouvir notícias na rádio, ouvir e ver o noticiário na televisão ou ler a informação em sítios noticiosos na Internet. São relatos do que ocorre no mundo, os quais podem ser tomados pela sua mais remota intencionalidade, como memória de acontecimentos.
Edgar Morin diz que se deve conceber, em primeiro lugar, o acontecimento "como uma informação; isto é, um elemento novo que irrompe no sistema social".1 Logo, para que se produza a notícia é necessário que ocorra o acontecimento. E, sem qualquer dúvida, são inúmeros os acontecimentos que surgem, em todo o lado, a toda a hora.
Mas nem todos são notícia. Para que tal suceda é necessário, em primeiro lugar, que a informação seja conhecida. Em segundo lugar, que a natureza do acontecimento tenha relevância social que justifique a sua difusão pública. Morin considera que o acontecimento é o que nos "permite compreender a natureza da estrutura e o funcionamento do sistema", enquanto a "notícia é um fenómeno de geração do sistema".
O acontecimento está sempre relacionado com um sistema, que lhe dá sentido. Do ponto de vista do que Morin teoriza, como sociologia do presente, é algo que é imprevisível, singular, desestruturante e, entre outros atributos, acidental. Desde que há jornais, com as qualidades e características que lhes atribuímos, houve a necessidade de estabelecer critérios que validassem a escolha dos acontecimentos noticiáveis.
Esses critérios, que afinal avaliam os acontecimentos, são na produção teórica sobre o jornalismo designados como valores-notícia. A referência mais antiga data de 1690, o século em que surgiram os periódicos. A actualidade, as coisas novas, a utilidade e a importância são alguns dos atributos a que se refere Tobias Peucer,2 na análise que faz aos relatos jornalísticos.
Desde então até aos nossos dias, há valores-notícia que perduram e que constituem um núcleo de requisitos partilhados pelos jornalistas. Todavia, os estudos sobre o jornalismo evidenciaram uma extensa lista.
Gislene Silva, investigadora brasileira,3 intentou agrupá-los num conjunto de 13 valores-notícia: conflito; conhecimento/ cultura; entretenimento/ curiosidade; governo; impacto; justiça; polémica; proeminência; proximidade; raridade; sucesso/ herói; surpresa; e tragédia/ drama.
Cada um ou mais do que um destes critérios podem justificar o tratamento noticioso. Quando se considera o requisito da proximidade tal significa, por exemplo, proximidade geográfica do acontecimento com a área de influência do meio ou proximidade cultural. Este último caso pode ser ilustrado pela tentativa de obtenção de informação sobre a existência de portugueses vítimas de catástrofes (valor-notícia tragédia/ drama) ou de guerra (conflito) que estejam a ocorrer em outros países.
Mauro Wolf diz que "a noticiabilidade é constituída pelo conjunto de requisitos que se exigem dos acontecimentos – do ponto de vista da estrutura do trabalho nos órgãos de informação e do ponto de vista do profissionalismo dos jornalistas – para adquirirem a existência pública de notícias."4
Acrescenta que se podem "definir os valores-notícia como uma componente da noticiabilidade". São os critérios que ajudam a responder "à pergunta seguinte: quais os acontecimentos que são considerados suficientemente interessantes, significativos e relevantes para serem transformados em notícias?"
Três fases
Gislene Silva aduz que os critérios de noticiabilidade acompanham três fases. São utilizados tanto na selecção primária dos factos (na sua origem) como no tratamento dos factos (a importância atribuída no espaço ou tempo concedido ao seu relato) e na visão dos factos (fundamentos éticos, filosóficos e epistemológicos do jornalismo). Fases essas que "não funcionam de modo isolado. Na prática da produção noticiosa, todos esses critérios variados de noticiabilidade actuam concomitantemente."
Embora os jornalistas não tragam consigo uma lista de valores-notícia, como se de uma cábula se tratasse, é evidente que esses requisitos fazem parte integrante do processo de socialização subjectiva nas redacções. Todavia, há dois requisitos fulcrais para que os acontecimentos sejam noticiáveis: a actualidade e o interesse geral, de acordo com Ricardo Cardet.5
Os critérios, embora partilhados pelo conjunto dos jornalistas, são aplicados em função da especificidade do órgão de comunicação social. A sua orientação editorial é, desde logo, o primeiro factor a influir na selecção do que é noticiável e no tratamento que lhe é dado. Outros factores que influenciam a escolha são a periodicidade do meio, a sua expansão e os públicos a que se destinam. A escolha dos acontecimentos e o tratamento das notícias é diferenciada caso se trate, por exemplo, de um jornal de informação geral ou de um jornal especializado (desporto ou economia), caso se trate de um jornal de expansão nacional ou de um de expansão regional.
Na primeira teorização sobre a imprensa, três autores norte-americanos, Siebert, Peterson e Schramm,6 postularam uma proposição importante: "A imprensa toma sempre a forma e a cor das estruturas sociais e políticas onde intervém. Reflecte especialmente o sistema de controlo social."
Embora a obra seja hoje considerada ultrapassada e tenha sido refutada em alguns aspectos, a relação entre os média e os sistemas políticos permanece actual, como o salientaram num estudo recente Hallin e Mancini.7 Aduzem "que não é possível compreender os média noticiosos sem entender a natureza do Estado, o sistema dos partidos políticos, o padrão das relações entre interesses económicos e políticos, e o desenvolvimento da sociedade civil, entre outros elementos da estrutura social."
A alteração ocorrida nos últimos anos no sistema dos média acentuou a prevalência dos interesses comerciais no tratamento da informação e conduziu ao declínio dos seus padrões. É dada, frequentemente, prioridade aos imperativos económicos sobre os deveres éticos, o que é gerador de conflitos de interesse e perda da independência jornalística.
Os acontecimentos estão, pois, na origem das notícias. Mas a escolha dos assuntos que são noticiáveis e o tratamento que lhes é dado reflectem a orientação editorial dos meios e os interesses económicos e políticos das empresas de comunicação social. Há, porém, uma outra variável que pode influenciar o resultado final, aquela que depende do desenvolvimento da sociedade civil.
Orlando César
1 Morin, Edgar (1969), La rumeur d'Orleans, Paris, Seuil, p.225, citado por Alsina, Miguel Rodrigo (2005), La construcción de la noticia, Barcelona, Paidós, pp.48-51.
2 Peucer, Tobias, Os relatos jornalísticos, tradução de Paulo da Rocha Dias, Estudos em Jornalismo e Mídia, Vol. I Nº 2 - 2º Semestre de 2004 (Brasil). Esta é considerada a primeira dissertação doutoral em jornalismo e foi defendida em 1690, na Universidade de Leipzig (actual Alemanha).
3 Silva, Gislene, Valores-notícia: atributos do acontecimento (Para pensar critérios de noticiabilidade I), Trabalho apresentado ao NP 02 – Jornalismo, do V Encontro dos Núcleos de Pesquisa da Intercom.
4 Wolf, Mauro. Teorias da comunicação. Queluz de Baixo, Editorial Presença, 2006.
5 Cardet, Ricardo, Manual de Jornalismo», Lisboa, Editorial Caminho (1988, 6ª edição).
6 Siebert, Fred S., Theodore Peterson e Wilbur Schramm (1956), Four Theories of the Press, Urbana, II., University of Illinois Press.
7 Hallin, Daniel C. e Paolo Mancini (2010), Sistemas de Media: Estudo Comparativo – Três Modelos de Comunicação e Política, Lisboa, Livros Horizonte.