Sensacionalismo

Os conceitos classificativos dos estilos dos média são difusos e insuficientemente definidos e estudados. É, porém, consensual distinguir três grandes estilos: meio de referência, meio popular e meio sensacionalista. A abordagem incidirá sobre o modelo com uma orientação editorial moldada pelo sensacionalismo, por ser aquele que incumpre mais frequentemente a ética e deontologia do jornalismo.

As classificações surgiram com a imprensa e caracterizam a orientação editorial, a abordagem, a temática e os discursos linguístico e visual. O padrão é estabelecido com o surgimento da imprensa e, embora não sejam conhecidas designações próprias, há alusões ao desvio, particularmente do tipo que hoje caracteriza o meio sensacionalista. Permite deduzir que o sensacionalismo, além de caracterizar um modelo, constitui também um recurso que os outros modelos trilham de modo esporádico ou a amiúde.

Os tipos classificativos podem ser aplicados extensivamente aos restantes meios, desde a rádio à televisão, passando pela informação digital. Tendencialmente caracterizam os meios de informação geral, embora possam classificar também meios especializados, como a informação desportiva. As características são, por vezes, difusas, daí que a classificação se faça por comparação com os outros meios ou por oposição aos outros modelos.

Há meios que se auto-intitulam como referência. Todavia, se há casos em que tal se torna evidente, noutros será necessário aprofundar o estudo. A partir dessa alegada referência construiu-se a ideia dos restantes modelos, quer determinada pelos públicos a que se dirigiam quer determinada pela finalidade empresarial. Quando se estabelece o padrão de referência, os leitores de jornais constituíam um universo restrito, composto por quem era alfabetizado e tinha recursos para o adquirir. Os jornais populares surgem mais tarde, no século XIX, com o surgimento da imprensa industrial, impulsionados pelo acréscimo de alfabetizados entre as classes intermédias e pela redução do preço unitário.1

Mas, simultaneamente com a imprensa popular surge a imprensa caracterizada pelo sensacionalismo, que intenta captar leitores entre a classe média e o operariado. Nos Estados Unidos da América, este modelo sensacionalista passa a ser designado como "yellow journalism"2 e no Reino Unido como "tabloid".3

O paradigma do sensacionalismo surge com a feroz concorrência dos magnatas da imprensa norte-americana, que travam uma guerra pelo acréscimo de vendas e captação de publicidade. Joseph Pulitzer, antes de ser identificado com o prémio de jornalismo a que deu o nome, "deixou a sua marca na guerra concorrencial com outro magnata da imprensa, William Randolph Hearst, no final do século XIX."4 As "batalhas travadas pelos dois magnatas pela disputa da maior circulação dos jornais levaram à criação do designado 'yellow journalism' [jornalismo sensacionalista, pouco rigoroso, com escassa investigação e confirmação das notícias, caracterizado também por grandes títulos, por vezes especulativos e sem sustentação, e que abusa dos exageros]."

Conhecer o tipo de modelos que moldam os meios de comunicação social tem importância para orientar a escolha da informação que pretendemos usufruir. Mas serve também para mapear o processo de contactos com a comunicação social. Quem é contactado com regularidade pelos média interessa-lhe saber que tipo de modelos e de práticas utilizam. Não é indiferente o tratamento que é dado à informação por um meio de referência e por um meio sensacionalista.

O mesmo sucede quando se pretende transmitir informação aos média. É possível antecipar as previsíveis abordagens e dessa forma adoptar a relação mais adequada no contacto com os jornalistas. Permite ainda optar pelos públicos destinatários dos diferentes média e, simultaneamente, exercer uma acção activa junto dos jornalistas e das chefias para que tenham uma conduta responsável na cobertura de matérias que envolvam os direitos da criança.

Os factores que mais contribuem para a diferença entre modelos são os discursos linguístico e visual, o tipo de temáticas e abordagem e, ainda, o grau de adesão aos princípios e valores éticos e à função social do jornalismo.

O modelo de referência é mais sóbrio quer do ponto de vista gráfico quer linguístico. Mais equilibrado na abordagem dos temas e com referenciais mais proporcionados, relativamente aos interesses em confronto. Embora a linguagem seja simples, clara e concisa, como é característica da escrita jornalística, não usa expressões de gíria e de calão para enfatizar o discurso.

O modelo popular, como o de referência, pode cumprir com escrúpulo os deveres éticos e deontológicos. A diferença reside nos temas que aborda, os quais estão mais próximos da realidade e das preocupações dos públicos a que se dirigem. Os problemas do quotidiano, com que as pessoas se debatem, constituem a parte substancial das matérias. A linguagem abstracta e conceptual é proporcional às competências dos públicos.

O modelo sensacionalista é construído a partir do popular, traduzindo o exagero, a dramatização e o apelo às emoções, que são reforçados pelas opções visuais, quer do aspecto gráfico quer do uso das fotografias. A linguagem procura reflectir o uso que lhe é dado pelos protagonistas das notícias. Os padrões éticos são difusos ou inexistentes.

Verificam-se também diferenças de proximidade geográfica e cultural nos diferentes modelos em relação aos públicos. Os meios de referência procuram elevar o padrão, procurando cumprir também uma função formativa, enquanto o modelo sensacionalista se coloca nos antípodas. Busca a identificação com os protagonistas das notícias.

Não existem, em regra, modelos puros e a tentação pelo recurso ao modelo sensacionalista ocorre também em meios de referência. Aliás, a pressão da publicidade, a captação de audiências e a direcção das empresas têm conduzido à degradação dos padrões e à replicação de fórmulas utilizadas com sucesso pelos modelos sensacionalistas.

Acentua-se a vertente do entretenimento em desfavor da informação e da formação. Aumenta o espaço ocupado pelos "fait divers", os escândalos, mexericos, curiosidades e bizarrias. Adoptam-se formatos que assentam numa trilogia temática: sexo, dinheiro e crime.

Os casos de polícia, a insegurança e a violência ganham dimensão e criam percepções e imagens por vezes desfocadas da realidade, quer por não terem referências sobre a sua expressão relativa quer por situar os casos nas periferias, com incidência em determinados grupos sociais.

São apontados casos por parte de comissões de protecção de crianças e jovens5 em que sobreleva no tratamento noticioso a falta de rigor, a especulação, a descontextualização dos assuntos e a ignorância relativamente ao estatuto, aos procedimentos e à finalidade do sistema promoção e protecção.

As fontes de informação e os públicos podem, e talvez devam, desempenhar uma acção mais activa neste processo mediante as escolhas que fazem e a qualidade que exigem, quer na abordagem dos assuntos quer nos atributos da função social do jornalismo. Mas também compete aos jornalistas o dever do rigor, da exactidão e da interpretação honesta dos factos (ponto 1 do Código Deontológico) e o dever de combater o sensacionalismo (ponto 2).

Orlando César

1 A moeda surge associada a fases marcantes do desenvolvimento da imprensa. A designação dos primeiros jornais que surgiram no século XVII, as gazetas, devem o nome à moeda. O nome de gazeta tem a sua origem na Itália e o termo foi cunhado em Veneza, berço do noticiário manuscrito. No século XVI, a moeda da cidade Estado de Veneza era a gazzetta. O valor de uma folha manuscrita custava uma gazzetta, tendo a unidade monetária acabado por designar o jornal impresso. Do mesmo modo, a imprensa industrial tomou a designação de imprensa "penny", na primeira metade do século XIX, em Boston, Estados Unidos da América. Isto é, tomou o nome de uma unidade de moeda igual a um centésimo de um dólar dos Estados Unidos.
2 A designação "yellow journalism" (jornalismo amarelo) deve-se a uma tira cómica, "The yellow kid" (A criança amarela), que o jornal "World" começou a publicar em 1896, em Nova Iorque, e que acompanhava uma cobertura noticiosa sensacionalista e de escândalos. O jornal "World" pertencia a Joseph Pullitzer.
3 O termo "tabloid journalism" (jornalismo tablóide) passou a designar a imprensa britânica que, no início do século XX, se caracterizava por temáticas como crimes, exploradas com sensacionalismo, e por noticiário sobre astrologia, televisão e mexericos sobre a vida de celebridades. A designação tablóide deve-se ao formato do jornal (dimensão de 43,2 x 27,9 cm).
4 César, Orlando, "O jornalismo a seus pés", Observatório de Deontologia do Jornalismo, boletim do Conselho Deontológico do Sindicato dos Jornalistas, nº 5, Setembro/ Outubro de 2010.
5 Respostas ao inquérito por questionário, que foi dirigido às comissões de protecção de crianças e jovens para obter sugestões para elaboração deste manual.