
A linguagem jornalística deve ser "compreensível, simples, concisa, densa (com propriedade, substância), autêntica, original",1 conforme salienta o jornalista Daniel Ricardo. A escrita relaciona-se com os factos e acontecimentos e com o contexto que lhes atribui sentido. Impõe-se que seja válida e verdadeira, precisa e fiel.
Na relação com a forma e conteúdo, exige-se da linguagem jornalística que seja inédita e singular, certa e resumida, evidente e natural. Mas também apresentar-se consistente, activa, ritmada e múltipla. Atributos cuja finalidade decorre da relação com os leitores, ouvintes e telespectadores. É crucial que seja apelativa, acessível e fácil de entender.
Daniel Ricardo afirma que a compreensibilidade das mensagens decorre, num primeiro nível, da respectiva clareza, e, num segundo nível, da sua vertente explicativa ou mesmo interpretativa. São, afinal, condições requeridas pelo processo comunicativo.
A partilha dos mesmos signos é que torna o diálogo inteligível. É função do jornalista ter o saber e a destreza para o concretizar de forma irrepreensível. Daniel Cornu sustenta que "a discussão sobre a verdade e sobre a objectividade na informação deve incidir […] sobre as três ordens da informação: a observação, a interpretação e a narração".2 A observação refere-se ao acontecimento e aos factos, a interpretação ao sentido e aos comentários e a narração ao estilo e ao relato. Deve, além disso, implicar o jornalista como sujeito de uma responsabilidade social específica.
Não cabe às fontes, como é óbvio, fazer o trabalho do jornalista. Mas, se compreender o processo, mais fácil se torna estabelecer uma comunicação útil e vantajosa para todas as partes. A construção do discurso jornalístico remete em grande medida para "os elementos da narrativa fixados por Cícero3 e que hoje designamos como lead,4 por influência da técnica de estruturação da notícia que foi cunhada no século XIX pela escola de jornalismo anglo-saxónica."5
A "introdução do lead no jornalismo pode resultar de um conjunto de factores: uma nova tecnologia, o recurso a uma técnica discursiva eficiente, a valorização do jornalismo no quadro do ensino superior6 e a necessidade de garantir a transmissão de factos essenciais. A narrativa acomoda-se aos seus factores: Quem? (o fenómeno), O quê? (os atributos da acção), Quando? (o acto fundador), Onde? (o local), Como? (o processo, as circunstâncias), Porquê? (as causas) e Com que meios ou instrumentos? (reforço do processo)."7
Todavia, os elementos da narrativa não são exclusivos do jornalismo. Integram qualquer discurso e são parte da narração. Esta é, por sua vez, componente da disposição, uma das partes constituintes do discurso, aquela que ordena o que se expressa. Dito de outra forma, os elementos da narrativa são nucleares no discurso. Indicam o sujeito (Quem), exprimem a acção (O quê), situam no tempo (Quando) e no lugar (Onde) e assinalam o modo (Como) e a causa (Porquê). Modo e causa estabelecem relação com a acção, o verbo.
A título de exemplo, veja-se o seguinte parágrafo: "O respeito pelos direitos da criança [Quem] cabe em primeiro lugar ao Estado [O quê], tanto hoje como no futuro [Quando], em Lisboa como em qualquer lugar do país [Onde], ao cumprir e fazer cumprir [Como] a Convenção que ratificou em 1990 [Porquê]."
O parágrafo contém todos os elementos da narrativa, tal como o lead de uma notícia. Todavia, é duvidoso que alguém lhe desse esse destino. Configura, no seu carácter imperativo, o tipo de discurso de alguém que insta o Estado a cumprir o compromisso assumido.
A notícia, por seu turno, requer actualidade e relevância. Com recurso ao mesmo tipo de elementos, podemos construir uma mensagem noticiosa: "O primeiro-ministro afirmou que cabe ao Estado garantir os direitos da criança, ao cumprir e fazer cumprir a Convenção que ratificou em 1990, no decurso da cerimónia ontem realizada, em Lisboa, para assinalar o Dia Mundial da Criança".
Nenhum discurso se limita ao primeiro parágrafo. A estrutura da narração é constituída por três partes: (1) Exposição; (2) Desenvolvimento da acção; e (3) Desfecho. Isto é, apresenta o assunto, desenvolve o processo e relata as acções até à sua conclusão. Nisto difere substancialmente da notícia, que é em regra anti-cronológica e começa pelo facto mais importante e mais recente.
Orlando César
1 Ricardo, Daniel, «Ainda bem que me pergunta: Manual de escrita jornalística», Lisboa, Editorial Notícias (2003)
2 Cornu, Daniel (1999), Jornalismo e verdade, Lisboa, Instituto Piaget, p.337.
3 Marco Túlio Cícero (80 anos antes da era cristã), na sua obra Invenção (De Inventione). São os seguintes os sete elementos da narração (elementa narrationis) do retor romano [segundo Francisco José Karam (jornalista e docente da Universidade Federal de Santa Catarina, Brasil), "A antiguidade greco-romana, o lead e a contemporânea narrativa jornalística", Sala de Prensa, 22, Agosto 2000, Ano III, Vol. 2, http://www.saladeprensa.org/art150.htm]: quem? (quis/persona), o quê? (quid/factum), quando? (quando/tempus), onde? (ubi/locus), como? (quemadmodum /modus), com que meios ou instrumentos? (quibus adminiculis/facultas) e porquê? (cur/causa). Todavia, os elementos da narração faziam parte da tradição do discurso greco-romano desde cerca de 400 anos antes da era cristã, cultivados por filósofos como Platão, Aristóteles e Protágoras.
4 O significado do substantivo lead é liderança ou vantagem, o que, no caso da aplicação ao jornalismo, traduz a qualidade do que está adiante ou superior [o verbo lead in significa fazer uma introdução e o lead to, levar a, conduzir]. O surgimento do lead é associado à invenção do telégrafo e à famosa mensagem de Samuel Morse (24-5-1844) "o que Deus tem feito", transmitida de Washington para Baltimore. Mas também à Guerra de Secessão nos Estados Unidos, durante a qual era frequente o corte da linha de telégrafo. Os repórteres deveriam cingir-se aos factos vitais, para que a informação chegasse às redacções [in Warren, Carl (1959, 3ª ed.), Modern News Reporting, New York, Harper & Row, Publishers]. As agências noticiosas disputam também a primazia da introdução do lead, como é o caso da Associated Press, criada em Maio de 1848, numa reunião que envolveu dez representantes de quatro grandes jornais de Nova Iorque, que se associaram para assegurar com vantagens económicas a cobertura conjunta da guerra entre Estados Unidos e México. Com base em estatísticas de análise de notícias, Marcus Errico, Califórnia, defende que a utilização do lead e a pirâmide invertida ocorre na Era Progressiva (1880-1910), "como consequência do desenvolvimento da ciência e da educação, no ensino superior" [Errico, Marcus, "The evolution of the summary news lead", Media History Monographs, Volume 1, nº 1, http://www.scripps.ohiou.edu/mediahistory/mhmjour1-1.htm].
5 César, Orlando, "Teoria e prática em Jornalismo - Da experiência à epistemologia do jornalismo", Relatório de candidatura a prestação de provas públicas de especialista em jornalismo, apresentado no Instituto Politécnico de Setúbal em Junho de 2011.
6 4º Congresso Internacional da Imprensa realizou-se em Lisboa, em Setembro de 1898, na Sociedade de Geografia. Foi aí debatido o tema sobre as Escolas de Jornalismo, de que resultou a fundação da primeira em Paris, no ano seguinte (1899). In Valente, José Carlos (1998), Elementos para a História do Sindicalismo dos Jornalistas Portugueses, I Parte (1834-1934), Lisboa, Sindicato dos Jornalistas, pp.35-36.
7 César, relatório citado.