
Os géneros jornalísticos estão associados ao lento percurso de afirmação do profissionalismo no jornalismo. A separação entre factos e opinião, assim como a figura do repórter, ganham existência com o surgimento da imprensa industrial que, em Portugal, ocorre com o nascimento do "Diário de Notícias", em 1864.
Jaime Brasil1 considera que "o profissionalismo da imprensa surgiu quando surgiram os grandes jornais de informação, populares, incolores, de que foi símbolo o 'Diário de Notícias'." Este jornal "criou o homem que vive só do jornal, que tem de lhe dedicar toda a sua actividade, que vive exclusivamente para o público, para o leitor, para a notícia – criou o repórter."
Antes daquela data, o periodismo estava infestado de amadores e de "certos 'intelectuais' do jornalismo". O domínio discursivo do jornalismo e a sua esfera de formação não estavam ainda fixados. A produção dos jornais assentava, em grande parte, no concurso de escritores e publicistas políticos, o que também influenciou os géneros textuais da época.
Decorridos quase 150 anos — um período reduzido nos quatro séculos de existência que têm os jornais —, o jornalismo está firmado como um domínio discursivo próprio. Uma especialidade em que confluem factores distintos, que lhe conferem uma expressão geral própria e, simultaneamente, as linguagens distintas de cada canal de comunicação.
O fenómeno do jornalismo caracteriza-se por um suporte (jornal, rádio, televisão, sítio Internet), uma instituição (o título do meio de comunicação social), com a respectiva formação discursiva (ideologia e cultura editorial) e os diferentes géneros jornalísticos (notícia, reportagem, entrevista, editorial, crítica, etc.), os quais utilizam diversas modalidades discursivas (tipos textuais).
A primeira grande fronteira é definida pela informação e pela opinião. Os géneros jornalísticos podem ser informativos ou opinativos. Há escolas de jornalismo que lhe acrescentam os géneros interpretativos e investigativos. Todavia, conforme o afirma Gabriel Garcia Marquez, "a investigação não é uma especialidade dentro da profissão, mas […] todo jornalismo deve ser investigativo por definição".2 Idêntico juízo se pode formular a propósito da interpretação. Daniel Cornu considera, aliás, a interpretação como uma das três ordens da informação.3
Marquez atribui particular importância à pragmática dos géneros e aos princípios deontológicos. Sobre estes diz que é preciso ter "consciência de que a ética não é uma condição ocasional, e sim que deve acompanhar sempre o jornalismo, como o zumbido acompanha o besouro."
Não há um quadro único para arrumar os géneros jornalísticos pelo tipo classificatório de informação ou opinião. A classificação pode variar de país para país ou segundo a cultura profissional. A opção aqui tomada centra-se no modelo utilizado nos ateliês de imprensa do Cenjor – Centro Protocolar de Formação para Jornalistas.
São géneros informativos aqueles em que o jornalista se cinge aos factos e em que não exprime opinião sua sobre os acontecimentos. Qualquer juízo de valor que a peça jornalística inclua terá de ser atribuída à fonte de informação que o declarou e o jornalista deverá cumprir os princípios que, neste domínio, o Código Deontológico estipula. Os géneros de opinião pressupõem desde logo argumentos, ideias e apreciações, que o seu autor defende ou contesta. Embora o jornalista possa assumir juízos de valor, não deixa de estar obrigado a cumprir a deontologia da profissão.
Tipos nucleares
Os géneros informativos representam o tipo nuclear dos textos jornalísticos. São eles a notícia, a reportagem, a entrevista e o perfil. O editorial, o artigo de opinião, o comentário, a crónica, a crítica e, entre outros, as cartas de leitores contam-se entre os géneros de opinião.
Philippe Gaillard afirma que "a actividade jornalística consiste […] em transformar os acontecimentos — ou, por vezes, simples informações — em notícias, pelo facto de as publicar."4 E acrescenta que essa "operação subdivide-se em três fases: a procura, a escolha e a redacção."
É uma explicação simples e sintética, para uma actividade que pode ser muito complexa e que requerer um maior número de procedimentos. Importa também dizer que, no decurso desta operação, o jornalista ouve fontes, cruza informações, confirma e verifica a informação obtida.
Cascais aduz que "são três os elementos essenciais de uma notícia: o acontecimento (que implica uma acção), uma informação (o relato compreensível da acção) e o público (a quem é dirigida esta informação)."5 E salienta que "escrever é responder a duas questões centrais: o que se quer contar? A quem?"
A notícia começa por ser labor de frades, sacerdotes e escribas, atendendo ao seu ofício, saber e erudição. Embora não corresponda ao conceito que lhe damos actualmente, o primeiro texto não-literário em português de que há conhecimento é a "Notícia dos Fiadores",6 datada do século XII (1175), no reinado de Afonso Henriques.
A palavra tem origem no vocábulo latim notitia e incorpora mais de uma dezena de significados.7 Destaco três deles — conhecimento, informação e exposição sucinta de um acontecimento —, eventualmente, os que melhor exprimem a função do género.
Guarda a memória das redacções que a notícia é a excelência do jornalismo e que a reportagem é o jornalismo de excelência. A novidade, a concisão, o rigor e a comprovação constituem atributos para a perfeição da notícia. A peça que, em regra, no primeiro parágrafo (o lead) responde a seis perguntas: Quem? O quê? Quando? Onde? Como? Porquê?
Entre os textos informativos, a notícia representa o género com maior volume de produção, enquanto a reportagem, cuja concretização é mais demorada, perdeu espaço nos meios. O jornalismo de excelência foi sacrificado pela pressa, pela redução dos jornalistas nas redacções, pelo custo e pela falta de investimento na formação. A decisão está enformada pelo cálculo contabilístico.
A reportagem, uma peça mais elaborada, que pretende colocar o público (leitores, ouvintes e espectadores) no local dos acontecimentos migrou da literatura para o jornalismo. Embora compartilhe a finalidade dos géneros informativos, a composição, objectivos enunciativos e estilo conferem-lhe características específicas. O autor não é um observador solitário, está acompanhado por aqueles que interpela e cujo discurso ecoa no texto, assim como compõe imagens escritas, sonoras e visuais que orientam o percurso.
É uma peça em que o jornalista deixa as suas impressões digitais. A interpretação que faz dos acontecimentos deixa uma ganga de subjectividade, mas sem resvalar na armadilha de uma conotação que afecte o juízo ético. Apesar do género rarear, há excelentes reportagens de novos jornalistas, assim como há registo de magníficas peças de velhos jornalistas.
A entrevista, por seu turno, consiste num diálogo entre duas pessoas, entrevistado e entrevistador. Não é, contudo, um diálogo qualquer. É uma conversa que carece de preparação do jornalista. Requer conhecimento sobre quem é entrevistado e sobre o tema ou temas em discussão. E exige a organização e decisão sobre a abordagem, que lhe imprimirá o factor distintivo. O perfil é um retrato em que o tema é o próprio entrevistado.
Nos géneros de opinião, a crónica representa também um caso de migração da literatura para o jornalismo. Patenteia, por vezes, algum hibridismo, já que nele confluem informação e opinião, mas num registo mais pessoal. Este seu carácter leva a que algumas culturas jornalísticas a incluam entre os géneros informativos
Quanto aos restantes géneros, o editorial constitui a opinião do próprio jornal ou da sua direcção. Os artigos de opinião são da autoria de jornalistas, colaboradores regulares ou convidados. As cartas de leitores traduzem opiniões do público sobre o próprio meio de comunicação ou sobre acontecimento públicos.
Os géneros de opinião, como o comentário ou a crítica, são em geral textos mais analíticos e que pressupõem o conhecimento da especialidade abordada. Os segundos procedem à análise de produções intelectuais, como cinema, teatro, livros, música, televisão e artes plásticas, entre outros.
As peças jornalísticas utilizam um ou mais tipos textuais, sendo a característica tipológica conferida pelo que lhe é dominante. Essas modalidades discursivas ou sequências textuais incluem, designadamente, as seguintes categorias: narração, argumentação, exposição, descrição, injunção.
Orlando César
1 Brasil, Jaime, "A primeira associação jornalística que houve em Portugal", "A Batalha", suplemento semanal ilustrado, n° 107,14/12/1925.
2 Marquez, Gabriel Garcia, "A melhor profissão do mundo", Observatório da Imprensa (Brasil). Jornalista, escritor, editor, activista político colombiano, fundador da Fundación Nuevo Periodismo Iberoamericano e integrou a comissão internacional de estudo dos problemas da comunicação presidida por Sean MacBride, que elaborou o relatório "Vozes Múltiplas, um Só Mundo – Comunicação e sociedade, hoje e amanhã", 1980, Unesco.
3 Cornu, Daniel (1999), Jornalismo e Verdade – Para uma Ética da Informação, Lisboa, Instituto Piaget. As outras duas ordens da informação são a observação e a narração.
4 Gaillard, Philippe, «O Jornalismo», Lisboa, Publicações Europa-América (1974).
5 Cascais, Fernando, «Dicionário de Jornalismo – as palavras dos media», Lisboa, Editorial Verbo (2001).
6 O texto foi descoberto em 1999, na Torre do Tombo, por Ana Maria Martins, segundo Maria Helena Mira Mateus, "Variação e variedades: O caso do português", 2002, http://www.iltec.pt/pdf/wpapers/2002-mhmateus-variacao.pdf.
7 De acordo com o Grande Dicionário da Língua Portuguesa, de António de Morais Silva, 10ª edição, Editorial Confluência, o substantivo notícia pode significar: conhecimento, informação, nota, observação, apontamento, resumo, exposição sucinta de um acontecimento, memória, lembrança, recordação, noção ensinamento, anúncio, biografia e nota histórica.