
O título "As entrevistas" cumpre aqui o carácter de registo, mas tem igualmente uma intencionalidade implícita. O uso do plural pretende induzir que o género não é singular no jornalismo. A entrevista assume uma tripla função, enquanto prática, recurso e género autónomo.
O diálogo, a interacção do jornalista com outrem, é inerente a todos os géneros jornalísticos. É um pressuposto da comunicação interpessoal e que na actividade profissional do jornalismo concorre para assegurar os três níveis da liberdade de informação: o direito de informar, de se informar e de ser informado.
Como prática, a entrevista adquire a função que lhe atribui o investigador, com uma metodologia semelhante à das ciências sociais. Concretiza a interacção social estruturada entre o pesquisador e a potencial fonte de informação, com vista a obter indícios relevantes ou a confirmar hipóteses e dados.
Como recurso, a entrevista constitui um meio para a obtenção de informações e declarações destinadas a utilizar em peças dos diferentes géneros jornalísticos, como a notícia ou a reportagem. O jornalista não visa apenas informar-se, regista o diálogo para informar.
Como género autónomo, a entrevista reproduz o diálogo acordado pelos interlocutores, que é conduzido pelo jornalista. Incide sobre um tema ou um domínio em que o entrevistado é especialista ou trata-se de uma interpelação ao percurso profissional ou de vida de um actor político, social ou da cultura. É a modalidade distintiva, através da qual se concretizam as três funções e se cumprem os três níveis da liberdade de informação.
Para Cascais, o género autónomo da entrevista "é o relato de uma conversa/ diálogo (na imprensa), ou o próprio diálogo (na rádio e na televisão), em que um entrevistador (o jornalista) coloca perguntas (as que nesse momento o público gostaria de colocar) a um entrevistado."1
Vera Silva apresenta um conjunto dos principais conceitos2 que encontrou após pesquisa e exposição de diversas definições. Refere-se à entrevista como a "interacção entre dois (ou mais) indivíduos" e como um "tipo particular de conversação cujas convenções são diferentes daquelas utilizadas em situações conversacionais quotidianas".
Aduz que é um "diálogo construído em que um dos interlocutores tem o poder e o dever de interrogar o outro" e também um "jogo de questionamento com o objectivo de captar a atenção dos leitores, ouvintes ou espectadores para uma revelação ou reconhecimento".
Considera que a entrevista configura "um diálogo democrático", mas para que ocorra "é fundamental que o entrevistador apresente uma personalidade dialógica e não monológica". Factores como "o encadeamento das perguntas, as interferências, as interrupções e as re-orientações no discurso do entrevistado" são tidas por Vera Silva como "a demonstração de um desempenho eficiente e maduro do entrevistador".
A entrevista tem múltiplas aplicações. Os filósofos Sócrates e Platão, vários séculos antes da era cristã, usaram o diálogo como método no ensino. A entrevista continua a ser hoje uma metodologia da investigação em ciência. Mas também serve para seleccionar candidatos no acesso ao ensino ou ao mercado do trabalho.
Cascais sustenta que "a entrevista é um dos actos fundadores do jornalismo profissional, ou do nascimento do repórter" e cita Michael Schudson3 para situar no século XIX (1860) a aceitação da entrevista no jornalismo como prática profissional.
Mas a entrevista é também hoje cultivada em meios de comunicação social (sobretudo rádio e televisão) em programas de entretenimento e conduzida por profissionais que não são jornalistas. Embora se refira ao trabalho jornalístico, Cascais salienta que "a fronteira entre informação e entretenimento é fácil de ser violada". E ocorre quando "a dinâmica própria de uma entrevista se transforma numa espécie de combate, ou numa discussão, num ambiente de agressividade por vezes suscitado pelo entrevistador".
Situações deste tipo, em que o espectáculo e o sensacionalismo derrogam a informação, geram receios entre potenciais entrevistados, que se sentem intimidados pelo meio, pelo entrevistador e pelo questionário. Arnaldo Saraiva alude ao "terror da entrevista",4 que pode não estar só do lado do entrevistado, mas também do entrevistador. Pode "promover encontrões, que naturalmente se espera que sejam só ideológicos". Todavia, nem sempre assim é.
As comissões de protecção de crianças e jovens (CPCJ)5 colocam um conjunto de questões sobre o relacionamento com a comunicação social e sobre a forma e os limites a observar para salvaguardar todos os interesses em causa (direito à privacidade, direitos da criança, jovem ou família). Referem-se também à preparação e formação de que devem dispor os elementos das CPCJ que contactarem ou forem contactados por jornalistas e sobre quem o pode fazer.
As questões enunciadas remetem, em grande parte, para o domínio da Convenção sobre os Direitos da Criança e da legislação de promoção e protecção de crianças e jovens em perigo e para a esfera de atribuições cometidas às CPCJ. Cabe-lhes estabelecer as orientações sobre os direitos a proteger e decidir se escolhem um interlocutor específico para as relações com os meios de comunicação social.
Noutras matérias, como as que se referem ao grau de respeito e confiança com os jornalistas, já foram aludidos diversos tópicos em outros textos do Manual.6 Em todo o caso, importa salientar que as relações entre fontes e jornalistas devem ser simétricas. Embora sejam diferentes os papéis atribuídos, uma e outra parte estão num plano de igualdade e ambas têm o dever de usar meios leais.
Para reduzir a incerteza na relação com os meios e os jornalistas, as CPCJ devem estar informadas e acompanhar a agenda dos média. A relação de confiança é um processo que segue naturalmente o seu curso e que radica nas práticas profissionais e na credibilidade que mereça o tratamento jornalístico dos temas.
Esse conhecimento acabará por elucidar os procedimentos mais adequados a adoptar relativamente a cada meio, assim como a experiência adquirida servirá para caracterizar a natureza da adesão à ética da responsabilidade.
Os contactos com os média supõem, como quaisquer outros, que haja um acordo prévio sobre a forma como decorrem, cujos termos são influenciados por quem o solicita. Se o jornalista é a parte interessada nesse contacto, estará mais disponível para aceder às condições colocadas. Entre elas contam-se, por exemplo, o tempo a conceder, a forma como decorre (telefone ou contacto presencial) e as matérias a tratar.
Se a fonte não se dispuser a falar sobre determinado assunto, deverá dizê-lo, assim como esclarecer as razões atendíveis que o motivam. Os termos são sempre objecto de negociação e visam obter consensos que interessem a ambas as partes. À fonte interessa-lhe saber quais os assuntos, por exemplo, que justificam o pedido de uma entrevista, para que se possa documentar e ser mais profícuo o diálogo.
Não se espere, porém, que o jornalista aceda a enviar previamente as perguntas ou que aceite submeter a entrevista a uma leitura prévia à edição. O conhecimento prévio das perguntas retira naturalidade ao diálogo e nega a imprevisibilidade enriquecedora do debate, enquanto a sujeição a uma leitura, audição ou visionamento prévios de uma peça jornalística compromete a responsabilidade e a independência do jornalista.
A entrevista, quer na modalidade de género autónomo quer na de recolha de declarações para peças de outro género jornalístico, pode ser relatada em discurso directo ou indirecto. O discurso directo representa a citação da fonte, a inscrição da sua fala, enquanto no discurso indirecto é o jornalista que relata o que lhe foi dito.
Como género autónomo, a entrevista requer que o jornalista se documente e identifique os assuntos que se propõe suscitar e que elabore a lista de perguntas que os seus leitores, ouvintes ou espectadores pretendem ver respondida. As perguntas devem ser claras, curtas e directas para que as respostas também o sejam.
A entrevista é, em regra, feita por um jornalista a uma pessoa. Mas pode assumir outros modelos, é o caso do jornalista que entrevista em simultâneo mais do que uma pessoa ou o do entrevistado que responde a um grupo de jornalistas. Incluem-se nesta última designação as entrevistas colectivas dadas por uma personalidade do espectáculo, por exemplo, ou as de grupo como são as conferências de imprensa.
Orlando César
1 Cascais, Fernando, «Dicionário de Jornalismo – as palavras dos media», Lisboa, Editorial Verbo (2001).
2 Silva, Vera (2009), Para o estudo da entrevista, Lisboa, Edições Colibri e Instituto de Estudos de Literatura Tradicional da Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa, p.53.
3 Schudson, Michael (1996), The Power of News, Cambridge, EUA, Harvard University Press.
4 Saraiva, Arnaldo, em "Ver, entrever", palavras introdutórias à citada obra de Vera Silva, cujo estudo orientou.
5 Respostas ao inquérito por questionário, que foi dirigido às comissões de protecção de crianças e jovens para obter sugestões para elaboração deste manual.
6 Ver, particularmente, os seguintes textos: "Relação das fontes com os jornalistas", "Sensacionalismo" e "Sensibilização e esclarecimento".